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sexta-feira, 19 de junho de 2009

BLUES, viagem da alma


Denilson Rosa dos Reis*

Parte 1: Origens

O Blues tem sua origem entre os negros que foram trazidos da África para atuarem como mão-de-obra escrava nas lavouras de algodão do Sul dos Estados Unidos. Durante a labuta diária, assobiavam melodias simplificadas – apenas cinco notas, chamadas de escala pentatônica – para exprimir os sentimentos de suas almas: dor, lamentos, saudade... Nesta época, não usavam nenhum instrumento, pois eles eram, por parte dos brancos, associados à magia. Assim, a voz era o único instrumento. Com o fim da escravidão, mas não da segregação e da exclusão social, muitos negros passaram a viver do Blues, como músicos em pequenas casas noturnas, as jook joints, verdadeiros barracões de madeira, numa mistura de casa de show, bar e boate. Foi nesta época, início do século XX, que começaram as lendas de bluesmens – homens do blues – que vendiam sua alma ao demônio em troca de tocarem e comporem melhor seus Blues. Lendas e mitos a parte, o certo é que o Blues deu origem ao sofisticado Jazz e ao popular Rock’n’roll. Neste contexto, temos a primeira geração do Blues, ou Geração do Delta, em virtude do Blues ter nascido no Delta do rio Yazoo, um dos braços do famoso rio Mississippi. Alguns bluesmens que destacaram-se: Leadbelly, Blind Lemon Jefferson, Big Bill Broonzy, Robert Johnson – o homem da encruzilhada – e a Diva Bessie Smith.

Parte 2: Da Lama a Fama
Com o sucesso dos primeiros bluesmens, logo veio a fama, alcançada pela chamada segunda geração do Blues, ou Geração de Chicago. O Blues deixa de ser rural para se tornar urbano. Os instrumentos acústicos aos poucos começam a ser substituídos pelos elétricos. O violão vai dar lugar à guitarra e os palcos passam a ser mais sofisticados deixando as jook joints para a história. Destacam-se neste período: Howlin Wolf, Muddy Waters, Willie Dixon, John Lee Hooker, T. Bone Walker e BB King. Com a popularidade do Rock e o culto ao Jazz, o Blues entrou num período de obscurantismo.

Parte 3: Branco de alma negra
No final dos anos 60 e início dos 70, roqueiros, principalmente ingleses, passaram a tecer rasgados elogios a bluesmens, que tratavam como Mestres. Em entrevistas de bandas como Rolling Stones, os nomes de BB King, Muddy Waters e John Lee Hooker eram citações esperadas. Surge neste contexto, a terceira geração do Blues ou Geração do Pós-guerra, em que se destaca o nome de Buddy Guy. A partir daí, o mundo passou a descobrir o Blues. Nas décadas de 70 e 80, o mundo passou a reverenciar o Blues. Os velhos bluesmens, agora chamados de Mestres do Blues passaram a fazer shows constantes e gravar discos regularmente, ao mesmo tempo em que jovens músicos começaram a dedicar-se exclusivamente a tocar Blues, embora com uma “roupagem” e uma “pegada” mais contemporânea, mas não menos competente. Neste momento o Blues deixa de ser uma música exclusivamente feita por negros e passa a ser criada por músicos que tenham a alma negra do Blues. Como disse Jimi Hendrix: “todo mundo tem algum tipo de Blues para oferecer, seja você negro, branco ou roxo”.

Professor de História, músico e fanzineiro
Contatos: tchedenilson@gmail.com
Imagem: Alex Doeppre (Novo Hamburgo/RS)

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