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segunda-feira, 22 de junho de 2009

FILHA OU MÃE?


*Luíza Bravo

Hoje, almoçando com meus pais, vi uma cena que, não sei exatamente porque, me tocou e me fez pensar sobre a vida sob diversas perspectivas, ao mesmo tempo. Na fila do buffet, uma senhora de seus 60 anos ajudava a mãe a se servir. A senhorinha, muito bem arrumada, tremia muito e já não conseguia fazer isso por conta própria. Também era notório o quanto estava deslocada naquele ambiente tumultuado, famílias inteiras se encontrando, casais de namorados, executivos discutindo negócios.

Acabei deixando as senhoras passarem na minha frente, não sei bem se por educação, compaixão ou, inconscientemente, para poder observar aquele pedaço da vida do qual, nós, jovens, normalmente nos esquecemos: a inversão dos papéis. Sim, chega uma hora da vida em que os filhos passam a tomar conta dos pais.

Os anos passam e, de repente, vem a vida e te avisa: “é hora de fazer a sua parte, de retribuir tudo o que esses caras fizeram por você durante tanto tempo.” Assim, sem qualquer preparo, os filhos começam a cuidar dos pais. Sim, talvez já tenham criado seus próprios filhos, mas como passar a tomar conta daqueles que cuidaram de você a vida inteira? Para quem ligar quando a mãe ou o pai tem febre, se sentem mal e já não podem mais fazer nada sozinhos? Meu Deus, como a vida é irônica!

Não obstante, atrás de mim, ainda na fila, chega uma moça com menos de trinta anos, e uma menininha, de menos de dois, no colo. A mãe, com os olhos brilhando de encantamento sobre o maior presente que a vida podia ter lhe dado, perguntava qual “papá” a criança queria, e ria a cada sorriso dado por aquele pedacinho de gente.
Não passava, certamente, pela cabeça da moça, que um dia aquela pequenininha vai crescer e, ainda mais tarde, ela vai se tornar a “pequenininha”, a frágil, a desprotegida. E aquele bebê, que hoje ela agarra e defende com unhas e dentes, vai passar a lutar com os próprios dentes, e a machucar com as próprias unhas, quem ousar fazer algum mal àquela que lhe colocou no mundo e a preparou para ele.

Não sei se mais alguém naquele restaurante estava livre o suficiente para reparar no “encontro” que reparei. Talvez os namorados estivessem envolvidos demais um com o outro, e os executivos, entretidos demais com seus laptops, para repararem nessas “banalidades”.

Mas, quem sabe, em uma daquelas mesas, estivesse outra pessoa observando tudo aquilo e pensando, como eu, que um dia, aquela menininha, já com seus sessenta anos, vai servir o “papá” da mamãe. Com prazer, espero.


* Luíza Bravo é jornalista

Contato: luizabravo@hotmail.com


FOTOS:
http://www.unipe.br/system/upload/2008/setembro/idosa.jpg

http://2.bp.blogspot.com/_VFoHpTVlTYM/SCjcRTp-1ZI/AAAAAAAAAHA/E92s9ziVDlc/s320/mae_negra_g.jpg

Um comentário:

Hannah Abraão disse...

Quem sabe, essa inversão de papéis seja uma forma de aprendermos que a vida é cíclica... Abraços mil, belo texto.