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segunda-feira, 19 de abril de 2010

ALZHEIMER ELETRÔNICO (Rita Velosa)

Às vezes tenho medo do futuro.Como nasci no século passado, tenho tido que adquirir muito conhecimento todos os dias para estar sempre atualizada em relação às novas mídias do mercado.Até mesmo tenho mandado imprimir algumas fotos digitais de maior estima pois os computadores evoluem sem incorporar antigas mídias.
Tenho também conservado muito bem meu tocador de bolachão ( com agulha de diamante) e de fitas k7s porque senão meu acervo de mais de 8o anos de música ficará inacessível para mim.Mas não se preocupem:não sou tão velha assim, nem vou morrer antes de terminar esta crônica!                     

E o meu derradeiro aparelho de vídeo-cassetes, que já ameaça  a dar os primeiros defeitos? O que farei com minha coleção de 200 filmes preferidos?
 

Investi muito dinheiro em minhas coleções como todo cidadão do século XX. Queríamos nossas fotos, livros, filmes,músicas,etc, sempre disponíveis e organizados, alí, ao alcance de nossas mãos.Nossas pesquisas eram rápidas e sucintas:restringiam-se aos nossos pequenos acervos pessoais.Dedicávamos um bom tempo -felizes tempos-a esses pequenos tesouros, conservando-os com carinho. 

Mas chegaram os aparelhos digitais,os PCs com seus sufixos -.au,-.jpg,-.mp3,-.mp4,-.divx, etc... e inviabilizaram minhas mídias, e, finalmente, meu PC. Adquiri novo PC,além de um Notebook. Mas o que fazer com meus tesouros?Sei que até já há como atualizar tudo em novos arquivos adequados às novas mídias. Mas isso custa muito dinheiro e mais estudo...talvez até mais um curso superior.

Já fiz demais!Então estou num processo de “Mal de Alzheimer Eletrônico” perdendo gradativamente minhas lembranças mais amadas...Dedico bom tempo à caça de antigos arquivos de música ou de velhos filmes.Mas acho um desaforo ter de passar por isso!
 
E quanto aos meus filmes e fotos de família?Tenho filmes de 1949 de meu pai namorando minha mãe, de vovô cantando "Carro de bigode", dos meus ancestrais cantando divertidamente: "Eram duas caveiras que se amavam.E no cemitério se encontravammm!!!, etc..." 

Está certo!Todos eles já se foram.Cantam agora talvez no cemitério.Mas suas vozes e sorrisos ainda permanecem - bem descorados já- nos écrans.Fico pensando:quantas pessoas no planeta estão se dedicando a preservar essa memória da humanidade?Alí vemos registros de arquitetura,música,moda, tecnologia (velhos carros ,navios, aviões, telefones, etc..., de meados do século passado.Vemos relações familiares, com hábitos como o beija-mão, o pedido de bênção para os mais velhos,.

Tanta coisa...É um imenso patrimônio sendo corrompido pelo Mal de Alzheimer Eletrônico.

Que horror!Vou acabar ficando na dependência só do meu próprio cérebro para conservar minhas memórias!Isso sim é que é  alto risco!
                                                                         

* Rita Velosa é jornalista e escritora
   ritavelosa@bol.com.br

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