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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CEMITÉRIO: FONTE DE LAZER E TURISMO.

*Marco Antônio Soares de Oliveira.                                                                                                                                      

Não estranhem o título da matéria, caros leitores, pois hoje em dia devido ao impacto da violência o ser humano está se refugiando até nos cemitérios. É o que fez com que o menino Leandro Tadeu Cordeiro da Silva, de l2 anos, procurasse esconderijo no campo santo para as suas horas de lazer. Depois de fazer os deveres escolares costuma ir ao Cemitério de Vila Formosa, perto de sua casa, na zona leste de São Paulo, o maior da América Latina, com 763 mil metros quadrados. 


Como ele mesmo diz: "Venho soltar pipa, porque aqui não tem movimento nem perigo de tomar choque". Revelou  isto no livro "Metrópole da Morte, Necrópole da Vida - Um Estudo Geográfico do Cemitério de Vila Formosa, de Eduardo Coelho Morgado Rezende. No seu trabalho apresentado para a conclusão do curso de Geografia na USP, os hábitos descritos por Rezende afastam-se da idéia do cemitério só como local de sepultamento. Diz o Autor: "Uma das causas principais é a falta de lazer gratuito para a população da região". Também faz o mesmo o morador da Vila Carrão, Marcos dos Santos, de 30 anos, quando não vai ao Parque do Carmo, em Itaquera, anda de bicicleta no cemitério.                                                             

O estudo do Prof. Rezende mostra que o Cemitério pode servir até para lazer. Preparou um outro livro abordando o tema "O Céu aberto na Terra". Como não encontrou editor fundou  uma editora "A Necrópole", onde acolhe todos os escritores  amantes de túmulos.  Diz que no Cemitério da  Consolação estão sepultados personalidades da nossa História como a Marquesa de Santos , Domitília de Castro, o músico Mario Zan e Antonino Marmo, que pela voz popular tem conseguido muitos milagres.  

Mesmo este cronista tem o hábito de freqüentar o cemitério. Quando posso vou fazer as minhas orações no túmulo dos familiares e aproveito para observar a natureza em toda a sua exuberância. Já descobri até ninho de corujas no local. Aproveito também para apreciar os beija-flores e outros pássaros e até ganhar conhecimentos de História, como reportou uma vez o colega Prof. Dimas, que o cemitério é a análise histórica da vida de uma comunidade.  

Aprendi no cemitério de Guaxupé, alguns fatos históricos como da Revolução de 32 entre S. Paulo e Minas, onde pracinhas paulistas foram enterrados. Não somente fatos históricos a gente aprende, como várias curiosidades e conhecimentos de pessoas que não temem a morte,  como o caso de Dona Catarina Aparecida da Silva, que já tem o seu mausoléu garantido e todo dia vai levar flores e lavar o seu próprio túmulo. 

Em Machado conheço a famosa vereadora "Maria do Cemitério", que foi criada naquela ambiente. Certa feita, ela me confessou que cresceu brincando nos cercadinhos dos túmulos. Atualmente ela mora no próprio cemitério, onde desenvolve a sua atividade de coveira e criou toda sua Família no local. Apesar de que nos dias de hoje, torna-se necessário ampliar o espaço, pois a demanda está intensa, nos Estados Unidos, precisamente em Los Angeles, no bairro de Hollywood, o metro está custando uma fortuna. 

Existe até uma agência, que anuncia: "Enterre seu ente querido próximo a um Astro ou Estrela do Cinema. Custe apenas 5 mil dólares." O espaço no terreno santo está cada vez mais caro, e acredito que nascerão imobiliárias só para preencher esse ramo de negócios.                                                                      

Como ia dizendo antes, gosto de cemitério pela paz e reflexão, que ele nos apresenta. Já até peguei alunos do Colégio, pulando o muro da Escola para preparar para as provas e estudar no campo santo. Nos meus tempos de adolescente, em noites principalmente quentes, ficávamos admirando o "fogo fátuo", em seu espetáculo pirotécnico, isto os ossos que aquecidos lançavam chamas ao espaço". Sei de casos, até de namorados, que marcavam encontros nos cemitério.                                                                          

O estudo do geógrafo Eduardo Rezende é deveras interessante, pois ele mesmo viveu algumas das situações que mostra no livro.   "Também, soltava pipa e pegava balão aqui", diz. Depois de estudar conceitos de concepção do espaço e de uso espacial, Rezende decidiu explorar o tema como uma "mistura de estranhamento e fascínio".                                                             

Concluindo, o cemitério nos rende uma vasta literatura tanta na área filosófica como a que revela o Autor fazendo parte do nosso lazer.      O turismo também está beneficiando-se com o além dos túmulos. Em S. Paulo buscando sempre  inovação, agências de viagens têm, elaborado rotas inusitadas para atrair cada vez turistas à Capital paulista. Inspirada pela cultura do medo e pela curiosidade macabra da população, a agência Graffit elaborou um roteiro que revela o lado sombrio da Capital com base em lendas e mitos fantasmagóricos da metrópole.

No roteiro, pontos como o Edifício Joelma, famoso pelo incêndio em meados da década de 70; o Cemitério da Consolação, um dos mais belos e antigos do País; e, o Castelinho da Rua Apa, construção quase desconhecida e desocupada desde 1937, mas recheada de histórias macabras.

O circuito, batizado na agência de "São Paulo Além dos Túmulos", inclui ainda visitas em pontos localizados no bairro da Liberdade, como a Capela dos Aflitos e a Igreja da Santa Cruz das Almas dos Enforcados. O passeio é realizado mensalmente e mostrou a cerca de 500 pessoas o lado fantasmagórico de São Paulo.                                                                                              
Os turistas da região podem agora desfrutarem do lado macabro da Paulicéia. E boa viagem! O telefone para quem interessar (11- 5549-9569, com saída no Largo do Arouche em S. Paulo; preço: R$ 30,00 por pessoa.                  

Os viajantes de hoje estão procurando algo mais do que as praias mais lindas do mundo. O lado sinistro do turismo tornou-se um novo foco para operadoras de viagens e para as faculdades de lazer e turismo.
As viagens mais sinistras incluem Iraque, Afeganistão, República Democrática do Congo, Somália, Burundi, 

Costa do Marfim e o interior do Paquistão. A atração pela morte tornou-se  o “point” mais requisitados pelos turistas como os “campos de morte” do Camboja, o local do desastre de 11 de setembro em Nova York, os campos de concentração do Holocausto na Polônia e Alemanha, que atraem mais de 3 milhões de visitantes por ano.                                                                    

:::: Jornalista e escritor.

Um comentário:

Hermínia Nadais disse...

Nós por cá vemos o cemitério como um lugar sagrado que gostamos de frequentar porque nos fala da vida para além da morte e sabemos, ali, estar perto dos restos mortais dos nossos entes queridos.