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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O MITO DE JUVENTUDE (Roberto Escritor)

            Conheci Juventude dias atrás, uma musa em forma de mulher, e não foi possível resistir aos seus encantos. Tive por ela o mesmo fascínio que tem o jovem ao surpreender a namorada em plena lingerie, posto que os olhos fossem objetivas dispostas a varrer toda minúscula porção de imagem, classificando esse místico encontro, estabelecendo uma linha imaginária diagonal que une na menor distância possível dois meteoros disfarçados de corpos. Juventude parecia em princípio uma delícia não consumível, tal qual sorvete que se oferece ao calor do sol quente e não é capaz de pingar uma só gota. Juventude navegava em forma de melodia fluida, que sopra aos quatro ventos, cada qual vindo de um pólo magnético distinto, e todos eles apontados para mim. Juventude parecia concentrar sua atenção sobre o meu corpo à procura de achados arqueológicos, como se em um passado recente eu também tivesse possuído uma juventude igual. Mas não fosse essa a nossa diferença, eu sequer hesitaria em ceder à volúpia que seu corpo convidava.
            Juventude parecia certa do que estava a procura, ousando aproximar-se, de maneira que nossos corpos experimentassem o primeiro toque, o suficiente para saber que aquele encontro era real, que os sonhos da última noite haviam cessado, e que aquela visão mágica era, na verdade, um presente dos deuses pagãos, coisas que a mitologia grega ou romana dá-nos com muito sabor. No primeiro instante, Juventude assumia uma forma de deusa e fazia lembrar Afrodite, vesga diante da minha meia-idade, disposta a ressuscitar em mim uma juventude há muito esquecida, abastecida de sentimentos próprios dessa fase. Reacendeu em mim a chama de uma lareira não bem consumida, de uma época em que tudo era delícia, que não existia o impossível, o limite, o cárcere. Tudo, absolutamente tudo, estava ao alcance, bastando para isso que o homem estivesse impregnado de desejo, que no momento seguinte fosse transformado em ação, modo necessário para elevar um sonho à categoria de realidade. Nenhum obstáculo seria intransponível, fosse necessário ir a Marte de um só pulo e voltar.
            Eu procurava classificar sua idade e enquadrá-la sob um referencial estético, mas Juventude exagerava em passos de dança cósmica, trocava de corpos com a maestria de uma modelo que rapidamente troca de roupas entre as idas e vindas da passarela. Quando eu finalmente parecia conseguir esclarecer o seu mistério, sua alma de fêmea decretava uma nova revolução, e ela sem nenhum falsete assumia a sua total diversidade, de espírito de legião, de uma só mulher dentro de muitos corpos. Mesmo assim, sabendo dos riscos que corria, aceitei seu compromisso.
            Como foram gostosas as primeiras noites. No princípio, toda juventude tem a energia dos furacões. Como é de praxe em todo início de relação, não havia cobranças. Mas num curto espaço de tempo elas começaram a acontecer.
            Juventude queria que eu fosse:
            Atleta! Musculoso! Dançarino! Baladeiro! Romântico! Poeta! Sonhador! Etc.!
            E, além disso tudo, que ainda fosse bom na cama.
            Então surgiram os conflitos:
            De geração, opinião, força, intelectual, físico, musical, cultural, sexual, estético, ético, culinário, tevê, cinema, livros, filosófico, antropológico, psicanalítico, etc…

Um comentário:

Nina Almeida disse...

Adorei seu Blog, amo tudo que é cultura, antigüidades, incluindo imagens textos. Segue meu Blog e deixe uma postagem, fico intensamente grata - Obrigada