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terça-feira, 23 de novembro de 2010

SEGREGAÇÃO RACIAL (Maura Soares)

 O branco chegou e disse: “negro, sai da frente, não suje o local onde eu quero pisar”. O negro, humildemente, saiu para o lado e o branco passou como se fosse o monarca absoluto.
                Subserviente por obrigação, por açoite, o homem negro foi e continua sendo pisoteado pelo branco, que, em minoria e com medo da emancipação negra, o dilacera e o escraviza para poder manter a hegemonia branca.
                Dotados de sentimentos mais profundos, mais sofridos, com um olhar que revela toda a dor de gerações passadas, surradas e sugadas pelo homem dito “superior”, o negro procura, dentro das brechas que alguns brancos de bom coração e sem preconceitos arraigados, galgar um degrau por mínimo que seja, na escala social.
                A televisão, o veículo que se diz transmissor de cultura é a meu ver, transmissão de ideologias, pois nos induz, através de comercias e de programas “humorísticos”, a creditarmos, a aceitarmos e a vermos o negro apenas como um empregado, um bêbado ou um ser que serve apenas para levar recados e fazer serviços que o branco não se acha digno de fazer.
                Talentos negros existem à mãos cheias, haja vista no setor literário, como um Alex Haley ou um James Baldwin, por exemplo. No Brasil, poucos foram aqueles que se destacaram. Cito Cruz e Sousa, o poeta maior do simbolismo, que, criado por um homem branco, foi recebido ---apesar do seu talento --- com reservas pela “elite” sulista da época.
                Artistas negros brasileiros de grande talento, tais como Ruth de Souza e Antonio Pitanga (para citar os maiores que eu considero) e outros, são colocados em filmes e novelas de televisão com papéis de cozinheiros e mordomos e que com talentos maiores do que as Reginas Duarte da vida, sujeitam-se a esses papéis com o intuito único da luta pela sobrevivência. A arte para eles é vida, mas a vida não se resume apenas ao representar, há outros fatores como o comer e o dormir. Isto custa dinheiro e, para ganhá-lo, sujeitam-se às maiores humilhações. Na música, então, são muitos os que podem ser enumerados. Cito alguns como Alcione, Sueli Costa, Roberto Ribeiro, Emilio Santiago, no Brasil e nos Estados Unidos temos os excepcionais Johnny Mathis, Nat “King” Cole, Dione Warwick, Sarah Vaughn que, junto com outros cantores e solistas negros estão, com muita garra, se impondo aos poucos no cenário musical.
                O problema maior é a discriminação na escola, onde o pequeno ser que engatinha na ânsia do saber, é colocado afastado dos outros colegas por causa da sua cor. Culpa dos professores, culpa da direção, culpa da sociedade escravocrata, colonizadora e paternalista que  perdura até nossos dias.
                “Dê apenas o essencial para que se sintam com condições de trabalhar e não se rebelem, e eles ficarão gratos ao seu senhor e amo”, dizem os preconceituosos. “Lugar de negro não é nos bancos escolares e sim na lavoura, à frente dos fogões, levando recados”, dizem aqueles que se julgam superiores. “Todos são iguais perante a lei”, dizem os juristas. Mas cada vez mais os negros são segregados, são marginalizados, são espezinhados.
                A sociedade brasileira ainda não se deteve a pensar no negro como um ser humano e que foi graças ao seu trabalho, que muitos enriqueceram.
                Mas eles resistem à repressão e, à duras penas, vão se livrando dos grilhões impostos desde a nossa colonização.
                Amo os negros bem como os judeus e os índios e a todas as raças ditas “inferiores”, mas que possuem uma beleza infinita que é a tradição do amor, dos costumes que são transmitidos através de gerações e que o branco procura mais e mais destruir.
                Defendo a causa dos negros como defendo a minha causa, a causa do homem branco que também é marginalizado por uma causa elitista, que controla os destinos dos povos. Talvez por serem de compleição mais forte, os negros resistem mais à ação destruidora do branco ao passo que este logo se entrega, não luta, marginaliza-se.
                Procuremos, agora, no limiar dos anos 80, sermos mais humanos, tornarmo-nos pessoas, no real sentido da palavra.
                Não custa nada amar, nem que seja só um pouco o seu semelhante, seja ele que raça for. O amor está em todas as coisas, basta apenas que se dê o primeiro passo, que se faça o primeiro gesto de carinho.

(*) Na época deste texto gostava de assistir filmes brasileiros e achava a atriz Ruth de Souza de um talento sem par.
Data desta época a minha ojeriza por novelas---não assisto até hoje ---.
Muita coisa mudou, haja vista os negros ricos por causa do esporte, muitos com cargos políticos (Barack Obama) --- muitos o reconhecimento mundial (Nelson Mandela), mas no Brasil embora tenhamos Ministro negro, ainda falta muita coisa pra chegar lá.
Meu texto não tinha nenhuma pretensão, também não sei por que escrevi, creio pra me livrar de alguma emoção, de alguma injustiça que tenha presenciado.

*Maura Soares
(escrito em  28.04.1980, guardar as devidas
proporções nas citações de personalidades
—texto sem nenhuma pretensão literária,
 apenas o que brotou da alma)(*)
contato com a autora: maurapoeta@gmail.com



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