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terça-feira, 26 de março de 2013

DESCONEXÃO SANTAMARIA (A Tragédia da Rua da Morte)



DESCONEXÃO SANTAMARIA
(A Tragédia da Rua da Morte)
Ninguém tem coragem de atender/
E avisar o que aconteceu.../
Fabrício Carpinejar
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-E quando você liga para a sua mãe, para informar que a boate está pegando fogo
E o céu está sem sinal?
-E quando a sua mãe liga para você, e o seu celular derretendo pelo calor ainda avisa que o fim próximo está no modo silencioso?
-E quando alguém atende o telefone do filho querido, e uma voz do outro mundo em lágrimas só diz que o dono do aparelho está morto?
-E quando a saída de emergência foi bloqueada porque os que morreram queimados ou pisoteados estavam sem comanda para sair?
-E quando você espera o filhote voltar da balada e o que volta é um telefone tocando a alma dentro da noite?
-E quando os contatos são extintos e as conexões caem como se um grupo de jovem caminhando muito além da aurora do sol raiando?
-E quando o céu é cor de fogo e o fogo é da cor da aurora e a aurora traz tons de sangue de almas jovens caminhando para o alto?
-E quando alguém vê do outro lado um grupo de jovens numa balada que começou como um beijo na noite fria do Rio Grande do Sul e se arrastará uma procissão de lágrimas na terra?
-E quando as mães se abraçam como anéis molhados no rosto procurando toques de celulares de baterias que não existem mais?
-(E quando alguns acordarem para verem que a banda do palco iluminado já não é mais uma banda e nem um palco é um palco mas um todo universal clarificado na amplidão?)
-O coração demorando a voltar para casa. Os filhos, todos, crianças de alguma forma, jovens, que levaram seus olhos para chorar em outras estradas muito além do horizonte; muito alem do sol, muito além do campo de lavanda de uma estrada de tijolos amarelos?
-A mãe não atende, diz um. A mãe não está em casa, diz outro. A mãe foi nos buscar, diz um que ainda tenta segurar a mão da esperança...
-A filha que não volta; o quarto arrumado, a última palavra – a balada – e os familiares chegando aos prantos. Tanta dor, tanta dor...
-Todos morreram, todos morremos. Morremos um pouco. Morremos em nós. Em nós mesmos o grito parado no ar... “Rogai por nós”
-O medo, o incêndio. Corações transpassados. O céu foi a única saída de emergência...
-Todos caminham. Passos no alto céu de Santa Maria. (“Amar as pessoa como se não houvesse amanhã”, dia o rock-balada)
-A dor é a única música a soar em prantos agora. Assim na terra como no céu. Corações são tambores como cavalos selvagens no peito.
-A musica vem semeada de lágrimas.
-A hora de voltar para casa não é hora de voltar mais, nunca mais; não há mais casa. O céu pode ser um lar?
-Como acordaremos o amanhã em nós? Uma nuvem pousa muito além do vale de sombra da morte...
-Jovens choram saudades quentinhas e sorriem abrilhantados com um novo céu e uma nova terra...
-A conexão será agora a única saudade. A morte não manda e-mail. A tragédia é um torpedo que já ficou pra trás. Vai doer mais quem ficou....
...na hora de nossa morte, Amém.
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Poetinha Silas Correa Leite, Itararé-SP/Sampa, Janeiro, 2013






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