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terça-feira, 26 de março de 2013

O EX-CLUÍDO (livro)

RESENHA DO LIVRO – O EX-EXCLUÍDO.Livro de Germano Gonçalves revela escrita visceral e urgente de autor que,
influenciado por Raul e Leminski, canta periferia pré-hip-pop
Por Antonio Eleilson Leite*, na coluna Literatura Periférica

(Leia, em nosso blog, o que é a nova seção de “Outras Palavras” e qual sua
importância para o site)

Germano Gonçalves é um autor do tipo que escreve porque a vida não lhe basta.
Dono de uma escrita urgente e visceral, seu texto traduz, palavra por palavra, a
vastidão de sua alma suburbana. Nascido em São Caetano, vive há muito tempo
na Zona Leste de São Paulo — mais especificamente no berço do samba, São
Mateus. 
O bairro é o cenário principal de sua inspiração poética e razão de ser
de O Ex-Excluído, livro que lançou no final de 2011, numa edição independente,
impressa sob demanda e, portanto, de circulação restrita, mas que pode ser
encontrado no siteClube de Autores.

Periférico das antigas, Germano é pré-hip hop. Seus primeiros textos vieram
ao mundo na década de 1980, antes que o RAP roubasse a cena, marcando
definitivamente o jeito de se falar e escrever nas periferias paulistanas. Ele
é da estirpe do Sergio Vaz, seu contemporâneo do lado sul dos extremos da
metrópole, cujos primeiros poemas foram publicados em 1986. 
Assim como o
fundador da Cooperifa, Germano foi muito influenciado pela Música Popular
Brasileira, em especial por Raul Seixas a quem ele faz um tributo em alguns dos
textos em prosa que encerram, como apêndice, seu livro de poesia.

O Ex- Excluído é um livro-manifesto. É uma obra autobiográfica. Escrita em

primeira pessoa nos textos de prosa e também em várias poesias, o autor
discorre sobre fatos e pessoas que lhe são ou foram muito caras. Lendo a obra,
o leitor tomará contato com Dona Maria de Lourdes, sua mãe e também com
seu irmão (de quem ele não revela o nome), cuja morte precoce e surpreendente
é narrada com tamanha emoção que nos afeta no sentimento de dor e perda,
embalado por um texto de grande vigor literário.
Germano se desnuda na obra. Ao terminar a leitura, parece que já o conhecemos
de longa data. 
Ele faz uma excelente crônica da periferia. Veterano das
quebradas, fala de um tempo em que era comum as rodas em torno da fogueira,
a garrafa de vinho Natal passando de mão em mão. No violão, mais uma do
Raul. Germano se orgulha de ser um raulseixista. Teve oportunidade de conhecer

o saudoso roqueiro baiano pessoalmente. Tomou uma cachaça com o Maluco
Beleza no mesmo apartamento da Rua Frei Caneca onde o cantor foi encontrado
morto em agosto de 1989.

Raul Seixas é fundamental na vida de Germano Gonçalves e sua principal
influência em termos de visão de mundo e estética. O gosto pelo rock, a
inquietação diante das injustiças e uma visão um tanto difusa sobre as desgraças
do povo vêm do velho Raul. 
Outro que foi importante, principalmente na
construção poética de Germano, é o também falecido poeta curitibano Paulo
Leminski a quem faz uma ode, no belo poema Preito ao Poeta.

Entre os poemas, Germano se dá melhor naqueles mais curtos, diretos,
alguns fiéis aos parâmetros da poesia concreta. Assim são: Corre que Corre;
Cárcere; Favela; Escrevendo, entre outros. Mas, de todos eles, o melhor é Spray,

uma preciosidade. Há hai kais, um soneto, mas principalmente poemas
com aquele verso livre ao estilo doPoema Sujo, de Ferreira Gullar. No poema

Cárcere, Germano brinda o leitor com os versos: A minha expressão / Não
está na proporção / Do meu Coração. Como bom poeta, Germano é um ser
questionador, inconformado. Nas suas palavras: São fatos consumados / Que os
poetas são mal amados / que nenhum se casa / Com a primeira namorada.
Germano está perto de fazer 50 anos. É portanto, como já notado, anterior ao
hip hop.
 Embora fiel ao rock and roll, o autor rende muitas homenagens ao
gênero criado pelo DJ estadunidense Afrika Bambaata. Numa dessas, faz um
poema em estilo ryhthm and poetry, chamado Rap da Injustiça. Mas se dá melhor
com outra poesia de mesmo estilo: Atirador de Elite. Algum MC tem que musicar

esse poema. Ficaria ótimo interpretado pelo Dexter. Vai ser bola num canto,
goleiro no outro.
“O mundo é o vício dos poetas”, este verso do poema Poetas, dá a medida da

obra de Germano. Quando tinha 18 anos queria ser hippie, perambular pelo
mundo. Sem ter cumprido à risca sua sina, nunca deixou de ser andarilho
e se expressar por meio da escrita, principalmente a poesia. Um andarilho
da periferia. Ele fala de um subúrbio que não existe mais. 
O que habita sua
memória é o de casas com quintais grandes, mães que são donas de casa e
cuidam da educação dos filhos, panorama de sua infância. Isso tudo está na
trilogia: Amanhecer na Periferia; Tardes Periféricas e Anoitecer na Periferia. Um
contexto diferente da periferia cantada pelos Racionais:estresse concentrado;
cada homem um universo em crise; um coração ferido por metro quadrado. Em

comum há a pobreza, a incerteza. Mas a periferia também não é mais a mesma
cantada pelos Racionais. Vale ouvir Emicida, que canta a lua e as estrelas que
cobrem o céu dos arrabaldes e fala de um povo que luta dia a dia, mas que tem
alegria e esperança no futuro.
Germano tem domínio da palavra e sabe ser um poeta profissional. O livro
traz dois poemas vencedores de concursos. Um aborda o tema da água; outro,

a questão da mulher. O primeiro está no nível da grande composição de
Guilherme Arantes,Planeta Água. O outro revela o talento e sutileza ao falar

da mulher, nominando-as de Maria. Marias que já não existem mais, dando
lugar a Ingrid, Carol e Sthefani. Curiosamente, na sequências desses poemas
encomendados, vêm três petardos que saíram da jugular do poeta: O Vício;

Labuta e Transitar.

O poeta de São Mateus, conhecido pelos sambistas que frequentam o lendário
Boteco do Timaia, faz apologia da leitura e dos livros. O cara crê mesmo que a
literatura salva. Talvez ele próprio tenha sido resgatado pelas letras. 
Se não foi,
consegue transmitir uma paixão pela leitura que só vi no escritor Luiz Alberto
Mendes – que nos 30 anos de cárcere a que esteve submetido devorou e foi
devorado pelos livros, tornando-se um dos grandes escritores da atualidade.

Germano é obcecado também pela ideia de ter um livro publicado por uma
editora. Não precisa ser grande, basta que seja uma Editora. Ele fala disso
nos poemas No Encalço; Presunção e Livro Aberto, entre outros. Publicar O Ex-
Excluído assim, independente talvez não o tenha satisfeito. Mas com este livro,

dá um importante passo rumo ao reconhecimento que merece.


E Germano precisa mesmo de um trabalho de editor. Seu livro é um tanto
caótico e os textos em prosa, se retirados, não fariam muita falta – sobretudo
aqueles muito pessoais, que soam mais como depoimentos. O título, além
de não fazer muito sentido, é de difícil pronúncia. 
Raulseixista que sou,
decepcionei-me um pouco com os textos dedicados ao Maluco Beleza. Mas isso
não tira o brilho da obra, que tem verdadeiras pérolas como Pássaros em Nova
York, uma das melhores coisas que já li sobre o 11 de Setembro. Tão sutil e belo

que sequer menciona o ataque aéreo explicitamente. Se bem organizados, este
e outros poemas publicados comporiam uma antologia belíssima, que revelaria
um poeta à altura de outros grandes nomes da periferia e da literatura brasileira
urbana contemporânea.
São Paulo, 27 de Fevereiro de 2012.

Antonio Eleilson Leite é historiador, programador cultural e coordenador do
Programa de Cultura da ONG Ação Educativa

 Contato:
Germano Gonçalves 
oescritor1@hotmail.com

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